31 de Outubro de 2009

O curso de francês duraria duas semanas antes das aulas a sério começarem, e consistia numas 'aulinhas' de manhã e visitas de estudo à tarde. Mas, a essas visitas de estudo só acabámos por ir uma vez. Não que não fossem porreiras, mas eram tantos alunos, que acabava por não se conhecer nada. E claro, eu e a Vânia preferíamos conhecer Paris à nossa maneira!... Mesmo assim ainda tínhamos tantos assuntos para tratar nessas semanas, que quase nem olhávamos para o programa das visitas.

De qualquer das formas, a única vez que fomos mostrou-se memorável...

 

 

Dia 22 de Setembro, a seguir ao almoço, lá fomos ter ao local do 'rendez-vous' (ponto de encontro, mais ou menos...), e uma imensa quantidade de alunos, todos estrangeiros, já lá esperava. Era o segundo dia do curso, e ainda muitos mantinham o entusiasmo de conhecer um pouco mais da cidade, e sobretudo de nos conhecermos uns aos outros.

Mas eram tantos que na viagem de metro, muitos não tiveram tempo de sair na paragem certa. E precisamente na viagem de metro, conhecemos o Tiago, a Clara e a Juliana. Tudo começou quando nos apercebemos que o Tiago era português, quando falava para uma rapariga brasileira, a Juliana. Por sua vez, o Tiago perguntou qual o nosso curso, e contou à Clara, espanhola, que depressa nos mostrou que era de Urbanismo também. Ok isto está confuso, mas ainda mais curioso fica, visto que estávamos todos sentados uns à beira dos outros, num metro com 5 carruagens, todas cheias de alunos...Há coisas do arco da velha!

 

 

 

 

Depois de saírmos na estação de Châtelet, uma das mais importantes de Paris (e supostamente a mais movimentada do mundo), atravessámos o Sena para a île de la Cité, passámos pela Conciergerie, e fomos até à Place du Parvis, em frente à Catedral de Notre Dame, e lá ficámos um bom tempo a contemplar obra magnífica. Enquanto nos juntávamos em volta dos nossos guias, íamos conhecendo mais pessoal, nomeadamente, um grupo de raparigas brasileiras. Trocávamos informações sobre alojamento, e tentávamos ajudar-nos como podíamos. A maior parte tinha conseguido alojamento em Paris, mas a preços muitos altos...

 

 

 

 

A seguir a Notre Dame, voltávamos a deixar a ilha onde nasceu Paris, atravessando o Sena a Sul, em direcção ao Pantheon (Panteão vá...). Passámos do 4º para o 5º arrondissement, e depois de subirmos a Boulevard Saint-Michel, chegávamos ao destino. Tirava-se muitas e muitas fotos, infelizmente naquele dia não pudémos entrar no Pantheon, mas a foto de grupo é que não podia faltar (ver foto em baixo, eu e a Vânia estamos na primeira fila, no meio, clicar para ampliar). Todos estranhos naquela cidade, mas deslumbrados com ela.

 

publicado por Nuno às 23:59

 

 

Depois dum saltinho a Montparnasse, no coração de Paris para pedir alguns apoios na procura de alojamento para estudantes (sem efeito, pois estava fechado), finalmente um passeio com calma por Saint-Denis, muito provavelmente, a nossa futura 'terrinha'.

Algumas fotos do centro, com a Praça Jean Jaurés e a Basílica como fundo...

 

   

publicado por Nuno às 21:08

Dia 21 de Setembro, a manhã tinha sido porreira, a experiência Erasmus tinha começado, e parecia tudo muito giro, MAS... E os outros assuntos? Pois, lá está, ao sairmos da universidade, entre outras coisas, tínhamos de continuar a procurar alojamento definitivo...

 

No dia anterior tínhamos decidido começar a procurar em Saint-Denis, aproveitando a vantagem de estarmos na sua universidade que fica a 15 minutos do centro. Também no dia anterior tínhamos feito uma espécie de lista com os melhores anúncios, e alguns deles tínhamos feito chamadas. De qualquer das formas a universidade tinha alguns anúncios espalhados pela parede, e teríamos de aproveitar qualquer coisa.

Precisamente quando estávamos a entrar na universidade, de manhã cedo, o telemóvel toca, e uma voz masculina com alguma idade, a misturar francês com inglês, pergunta quando queremos visitar o quarto. Na estranheza de como no meio das chamadas que tínhamos feito no dia anterior, esta teria dado resultado (sabe-se lá como), explicámos que só de tarde poderíamos lá ir.

Ao meio-dia, nem quisémos saber do almoço e fomos direitinhos lá, seguindo a morada que o senhor nos tinha dado. Direitinhos nem por isso, Saint-Denis é relativamente grande, e naquele momento nem sequer o centro conhecíamos. Mas seguindo o mapa lá fomos, a pé, com malas, e muito calor, enquanto observávamos uma cidade tão diferente de Paris, mas tão familiar...

 

  

 

Passado meia-hora, lá chegámos ao local...Não era um edifício de apartamentos, não era um barraco, uma cave, um anexo ou uma vivenda, mas sim... um 'Hôtel'! Como em França, grande parte dos edifícios se chamam 'Hôtel', por exemplo, a Câmara Municipal é 'Hôtel de Ville', o melhor é traduzir para residencial. Sim era um pequeno prédio, situado num dos eixos principais de Saint-Denis, Boulevard Jules Guesde, e com uma pequenina entrada com as características típicas duma residencial parisiense (sim, nós conhecíamos muitas, ui!). Precisamente ao lado da entrada, um café chamado 'Vila Nova' com a bandeira portuguesa confortava-nos (ver fotos em cima)...

Ser residencial à partida seria mau sinal, seria mais caro, e não teria um carácter tão definitivo como pretendíamos. Mesmo assim decidimos entrar, quanto mais não fosse para descansar. E descansar foi coisa que não faltou. O 'monsieur' do Hôtel, disse para esperarmos um pouco que já vinha falar connosco, puxou duns bancos de plástico, e fez-nos sentar mesmo no corredor da entrada com uns expressivos 1,50 metros de largura. O tempo passava, e não havia forma de ele voltar para falar connosco... Depois de passarmos uns 20 minutos a observar a extensão de carpetes que decoravam simplesmente o chão, a quantidade de aquecedores do tempo das nossas avós encostados às paredes (ver fotos em baixo), e móveis inúteis a ocupar um corredor já demasiado estreito, começamo-nos a perguntar se não estaríamos ali a perder tempo:

 

   

 

- Vamos?

- Só mais 5 minutos...

- Bem, não custa nada só ver o quarto...

- Ok...

 

...5 minutos mais tarde:

- Vamos embora?

- Ok vamos...

 

Precisamente quando nos íamos levantar, fartos da espera por algo que o mais certo era não nos interessar, já para não falar da fome, o 'monsieur' abre a porta todo stressado, pede 'pardon', e começamos a conversa. Depois de falarmos 4 línguas diferentes para nos fazermos entender, algo parecia nos interessar. E ele lá foi nos mostrar alguns quartos.

Subindo as típicas escadas parisienses, estreitas e em caracol, e a tropeçar nas carpetes, chegámos ao terceiro piso, e o homem não tem mais nada, bate a porta em alguns quartos para nos poder mostrar os mesmos. Em dois deles não estava ninguém mas num aparece-nos um gajo, acabado de acordar. Que hábito mais estranho, mas o gajo nem reclamou! Mesmo assim, os quartos eram interessantes, eram uma espécie de estúdios, com frigorífico, placa de fogão, e sala de duche. Faltava fazer o negócio...

 

 

 

Depois do 'monsieur' nos dizer que era proibido ficarmos num quarto individual, restava-nos um quarto dulpo 'petit' (que é feito desse jogador...). Mas para mal dos nossos pecados... já estavam todos ocupados!

Mas sentindo o nosso desespero, o 'monsieur' propôs-nos ficar num quarto individual só nessa noite, e depois via-se o que se arranjava. Ok negócio mais-ou-menos feito...

Ainda não era desta que tínhamos um local definivo para arrumar as nossas coisas, onde pudéssemos finalmente comer algo cozinhado por nós, etc.. 'Merde'!

 

Depois de subirmos novamente as escadas infernais desta vez com malas, o que é que fizemos?!

Voltámos a descê-las, para irmos finalmente almoçar...

 

Quando regressámos, à noitinha, o cheiro insuportável a naftalina (ou seria mofo?) do quarto e as janelas cobertas com plástico rachado, faziam-nos continuar a procurar na internet mais anúncios de alojamento...

 

 

publicado por Nuno às 18:42

29 de Outubro de 2009

Saudades do stress de acordar cedinho para chegar a horas à universidade. Mas como bons portugueses que somos, chegámos tarde ao nosso primeiro dia de ERASMUS.

A tarefa não era fácil, o hotel F1 onde tínhamos passado a noite ainda era longe da Université de Vincennes-Saint-Denis Paris 8, na verdade estão em lados opostos em relação ao centro de Saint-Denis, mas o pior era mesmo ir com as malas no metro...

Lá fomos nós, a escorrer suor pela cara, e à procura duma sala que parecia não existir.

 

Segundo informações que fomos recebendo por mail durante as férias grandes, as aulas a sério só começariam no dia 3 de Outubro, até lá haveria uma espécie de curso de françês que duraria duas semanas para os estudantes estrangeiros. De qualquer das formas dia 21 de Setembro era para estarmos no gabienete da nossa coordenadora Erasmus de França, às 9.30. E não sabíamos mais nada...

 

Ao saírmos da estação de metro 'St-Denis Université', um pequeno edifício em azulejo branco aparecia-nos à frente, com ligações (através de pontes) com outros edifícios. A pressa com que estávamos fez-nos entrar no primeiro edifício que nos apareceu à frente, e depressa nos perdemos...Perante o emaranhado de corredores, e de grandes salões com diferentes cores e feitios, o desenrascanço (produto de origem portuguesa, quem não acredita ver http://www.cracked.com/article_17251_p2.html) fez-nos chegar ao gabinete da coordenadora em 6 minutos!!! O gabinete ficava num outro edifício mas com ligação por umas escadas exteriores nas traseiras do edifício em que entrámos inicialmente! Uff... que jóia de arquirectura...A universidade parece um autêntico castelo 'horizontal' feito em legos de várias cores...

 

 

 

20 minutos atrasados! A coordenadora depressa nos encaminhou para uma sala...Mas não era uma simples sala, era um enorme anfiteatro, com cerca de uma centena de alunos, todos estrangeiros. Uns de Erasmus, outros de intercâmbio brasileiro, todos a escutarem atentamente dois professores, um deles igualzinho ao Dr. House, que pena não ter tirado fotos, é que era mesmo, mas mesmo igualzinho. Já sem malas, que as deixámos no gabinete, sentamo-nos nas escadas juntamente com outros que chegavam tarde, o anfiteatro abarrotava de gente. Mas todos pareciam perceber o que os professores diziam, impressionante, porque eu não percebia nada... Mas fazia de conta que percebia; até me ria das piadas que os professores pareciam dizer. Felizmente a Vânia percebia tudo, e ia traduzindo...

 Aquilo era uma espécie de apresentação de boas-vindas. Falaram da universidade, deram-nos dicas, tiraram dúvidas, apresentaram-nos estudantes franceses que nos podiam auxiliar e falaram do curso que íamos ter nas próximas duas semanas: divididos em quatros grupos, cada grupo iria ter todas as manhãs uma aula relacionada com um tema sobre a cultura francesa; e todas as tardes haveria uma visita de 'estudo' em diversas zonas de Paris. Perante isto uma voz na multidão ergue-se:

 

-  Professeur, se vamos ter todos os dias ocupados, que tempo nos sobra para ir tratar de assuntos como alojamento, antes das aulas 'a sério' começarem??

(que tradução fantástica...)

 

Bem dito, pensávamos nós, curiosamente, eu e a Vânia tínhamos a mesma preocupação. Até que a professora pergunta logo a seguir:

 

- Quem daqui ainda não tem alojamento definitivo??

(mais uma tradução fantástica!)

 

Até que, três quartos, sim 3/4, 75%, dos alunos levantam o braço. Que cena insólita... Tão insólita que a professora depressa pergunta se alguém andava a dormir na rua ou algo do género, e muitos de nós fecharam simplesmente os olhos.

Um debate aceso se inicia discutindo a problemática do alojamento, e a professora não teve mais nada senão acalmar a multidão dizendo que não haveria problema se faltássemos algumas vezes ao curso...

Distribuíram-nos folhas com os grupos dividindo os alunos, e vimos que existiam apenas mais dois alunos portugueses, e apenas mais dois alunos que iriam estudar Urbanismo como nós.

A palestra acabou, e todos nós saímos do anfiteatro com um sorriso disfarçando curiosidade e excitação. Metíamos conversa uns com os outros, conhecíamo-nos o mais que podíamos, e saímos da universidade com a certeza de que a experiência Erasmus valerá a pena...

publicado por Nuno às 20:30

França e as suas regiões: Île-de-France ali no 'centro-norte'

 

Ile-de-France, e sua divisão: Paris ali mesmo no meio...

Saint-Denis pertence, como o nome indica, à sub-região de Seine-Saint-Denis.

 

E agora, Saint-Denis (a vermelho) no mapa de Paris e subúrbios...

 

 

publicado por Nuno às 11:41

28 de Outubro de 2009

9.4 km a Norte do centro da cidade de Paris, mas bem juntinho à Boulevard Periphérique que circunda a capital, encontra-se a 'ville' de Saint-Denis.

'Ville' quer dizer cidade em francês, embora por aqui ter ou não ter o estatuto de 'cidade' é bem diferente do conceito português. De qualquer das formas Saint-Denis é uma localidade com quase 98.000 habitantes, mais do que Aveiro. Uma pequena metrópole nos subúrbios de Paris.



Saint-Denis é conhecida, fundamentalmente, por três razões:

- Uma cidade francesa que não tem franceses! Melhor dizendo, poucos são os franceses de gema que aqui habitam. É maioritariamente habitada por imigrantes das ex-colónias, mas os portugueses também têm uma presença significativa...

- Criminalidade! Foi a primeira coisa que nos disseram, ainda estávamos nós em Portugal; que Saint-Denis era perigosa e má movimentada. A wikipédia não ajuda nesta imagem ao dizer que é uma localidade com taxas de criminalidade muito altas em comparação com a média nacional. Mas curiosamente, Saint-Denis nem esteve muito ligada aos incidentes de 2005 (lembram-se dos carros incendiados?), gerados por revoltas sociais dos imigrantes.

- Stade de France! É o estádio nacional de França, construído com o propósito do Mundial de 98. Os seus 80.000 lugares fazem dele o grande símbolo de Saint-Denis, pondo injustamente para segundo plano a imponente e histórica basílica no centro da cidade. Saint-Denis foi o local escolhido para a construção do estádio por razões que um futuro urbanista como eu (oh yeah! espero bem que sim) explicará depois...

Apesar de à primeira 'vista' parecer uma daquelas cidades industriais construídas à pressão - típico dos subúrbios -, Saint-Denis é demasiado histórica para o valor que lhe dão.



Começou por ser uma vila galio-romana (deve ser assim que se escreve) chamada Catolacus, e não sei se foi por ter um nome tão 'católico', que se passou lá o seguinte: havia um tipo muito porreiro chamado Dionísio, Denis para os amigos. O tipo era tão porreiro que foi nomeado primeiro bispo de Paris no século III, já lá vai algum tempo. Só que ele teve algum azar, deve ser por isso que o chamaram depois de mártir: não é que o homem andou a tentar converter os gauleses a mando do imperador romano Décio, e acabou decapitado por isso? Mas o mais estúpido é que não foi o Astérix e companhia a assassinarem-no, mas sim... um outro imperador romano!

Claro que o facto dos imperadores romanos não se decidirem se queriam instalar o cristianismo ou não, acabou por deixar o Dionísio irritado, e o pobre coitado não teve mais nada: após a decapitação, o seu corpo pegou na cabeça e foi-se embora (como se pode ver nas imagens em baixo; aliás se em Paris virem uma estátua dum bispo sem cabeça, é o  Saint-Denis!). Mas tal como as galinhas, acabou por não ir muito longe, falecendo de vez perto de Catolacus.



Com medo que ele se levantasse outra vez, enterraram-no ali mesmo, e os amigos passaram a falar dele como o Saint-Denis. Algum tempo depois, já o império romano tinha ido à falência, Saint-Denis já possuía um considerável número de fãs. É então que a fã número 1, Genevieve (mais tarde beatificada), já sem espaço no seu quarto para colocar os posters do seu ídolo, constrói uma capela em cima do túmulo, arrastando em peregrinação imensos fãs para lá. Passado uns séculos, Jim Morrisson constituía um fenómeno semelhante, também em Paris.

A admiração era tanta que o Rei Dagoberto, já no século VII, aproveitando-se do seu poder, manda erigir uma basílica perto do túmulo, concede à vila, agora denominada Saint-Denis, um estatuto real e independente, 'oferece-se' para ser enterrado lá, e ainda concede uns benefícios fiscais ao comércio. É por isso que ainda hoje há nas ruas de Saint-Denis imensas pessoas a vender ilegalmente, porque pensam que esses benefícios ainda estão em vigor.

 

 

A vila tinha na altura o grande previlégio de ser o local escolhido para se enterrar os reis de França, mais precisamente na basílica. Ok, eles não eram enterrados, mas sim postos em túmulos, e claro, estes iam-se acumulando, o que era uma dor de cabeça para as empregadas de limpeza. É então que, no século XII um conselheiro real chamado Suger (ver foto em cima, à direita) manda reconstruir a basílica.  Ele curtia ouvir Sisters of Mercy e Bauhaus (ele tinha um mp3 com música do futuro, e por alguma razão o mp3 também era do futuro), transpondo o seu estilo de música preferido para a estética da nova basílica. E assim nasce o estilo gótico!



Mais tarde na guerra dos cem anos, Saint-Denis é arrasada, passando de 10 000 para 3000 habitantes! E pouco depois o rei Luís XIII, o 'Bem-amado', aquele que deu origem ao travestismo, decide construir e melhorar os edifícios da vila, através duma cunha da filha mais nova que era freira na paróquia de Saint-Denis, claro está...

No século XVIII, Saint-Denis é invadida por essa coisa chamada indústria. Mas uma invasão do caraças! A vila cresce excessivamente, cada vez mais fábricas, cada vez mais pessoas, cada vez mais imigrantes, e cada mais vez mais confusão...E a imponente e histórica basílica, a primeira de estilo gótico, ali no meio do fumo, e da confusão, caindo no esquecimento...Apesar da indústria ter trazido a Saint-Denis uma linha de comboio e um canal fluvial (ver foto em baixo), trouxe também imensa instabilidade social, sendo apelidada de 'Ville Rouge' até aos dias de hoje pela forte relação dos operários com o comunismo (não é desta que me livro da política...).



As últimas décadas deram oxigénio a Saint-Denis, com importantes planos urbanísticos, que trouxeram, entre muitas coisas, uma universidade, uma linha de metro, parques verdes, e um estádio que renovou uma imensa zona industrial que separa a cidade de Paris do centro de Saint-Denis.

Apesar de neste momento ser uma cidade renascida, acompanhada dum expressivo reforço policial que tenta contrariar as estatísticas criminais, Saint-Denis é uma cidade histórica, com uma basílica mais antiga que Notre-Dame, mas que não tem turistas... O baixo custo de vida, que contrasta com o centro de Paris, continua a atrair imigrantes, mas a pouca indústria ainda existente não chegará para todos, e o futuro de Saint-Denis será incerto...


publicado por Nuno às 21:26

24 de Outubro de 2009

Metro, linha 13, em direcção a Saint-Denis, essa vila-cidade onde estará a nossa universidade de acolhimento, "Université de Vincennes-Saint-Denis Paris 8". Enorme designação que em nada compete com... UA (Universidade de Aveiro)...

É também a nossa esperança em encontrar um alojamento barato, definitivo, e rapidamente! Mas enquanto isso não aparece, uma noite no hotel F1 de Saint-Denis iniciaria uma semana de experiências completamente novas.

 

Reservámos nessa mesma tarde o quarto. Já conhecia a cadeia de hóteis F1 (www.hotelformule1.com); na verdade a única vez que vim a Paris, "era eu uma criança" (by José Cid), fiquei instalado num F1 perto da Eurodisney. São um grupo de hóteis, normalmente instalados na periferia das grandes cidades, e em que o preço é por quarto (duplo/triplo) e não por pessoa, o que para algumas noites pode ficar muito 'em conta'; de qualquer das formas as condições são excelentes, mas já lá vamos.

 

Apesar de haver mais do que um F1 em Saint-Denis, na altura não o sabíamos e fomos escolher precisamente o que ficava fora do centro da vila. Mais precisamente junto a um estádio...Mas não um estádio qualquer! É o Stade de France, o estádio nacional, e um dos maiores do mundo, e sim, fica mesmo em Saint-Denis. Facto que não diminuia a má e preconceituosa imagem que tínhamos da zona, mas só estando lá é que podíamos confirmar essa 'imagem'.

 

 

 

O metro acaba de sair do 18º arrondissement, passa sob a Boulevard Peripherique, e 'entra' no 'banlieue' de Paris, a tradução francesa de subúrbio. Termo mal-amado em muitas cidades, e mais do que nunca em Paris, em que os incidentes de 2005 continuam bem frescos...

O metro passa a levar pouca gente, gente essa que parecia tudo menos francesa. Os fatos e gravatas, são substítuidos por fatos-de-treino, e os casacos compridos de veludo são substítuidos por grandes lenços a cobrir a cabeça. Uma feminina voz-off no metro anuncia: - Porte de Paris, Stade de France! Deve ser aqui...

 

Á medida que víamos a luz do dia, apercebemo-nos que estávamos num emaranhado de auto-estradas, dum lado, edifícios às cores, antigos e um pouco degradados só podiam representar o centro da vila, e do outro lado, edifícios modernos de escritórios acompanhavam o enorme Stade de France. Esse lado, onde estaria o hotel F1, constituiria uma espécie de muro que separa Paris de Saint-Denis?

 

 

 

Após circundármos o Stade de France, perdemo-nos numa imensa zona industrial. Era uma tarde de domingo, todos os edifícios e ruas vazias, e o mapa que tínhamos só incluía a cidade de Paris. Mas ao longe o símbolo do Mcdonalds (sim, aquele 'M' medieval) só podia significar que o Hotel estaria lá perto.

 

Chegámos e ficámos encantados com as condições, um luxo a que há alguns dias não estávamos habituados (a televisão era um ecrã plasma!!!!).

 

 

 

Mas pronto, única desvantagem foi mesmo ir a procura de sítio para jantar, e só o Mcdonals ser a excepção naquele deserto industrial. Na verdade, o Mac foi construído ali para servir apenas os hóteis dos arredores e o estádio. E com isto prometo não publicar mais nenhum post com a palavra 'Mcdonalds'! Não que eu não queira, na verdade nesse dia já não podíamos ver mais tabuleiros castanhos cobertos com anúncios dos bonequinhos do Happy Meal à frente.

 

Noite cerrada; às 9.30 do dia seguinte tínhamos de estar numa universidade que não sabíamos onde ficava, com as malas atrás e com muitos telefonemas para fazer. A nossa cabeça já se preparava para um misto de stress, curiosidade e esperança.

publicado por Nuno às 13:22

16 de Outubro de 2009

Ir a Roma e não ver o Papa? Talvez.... O que acontece é  que o 'Macdô', como dizem os franceses é dos poucos locais com internet grátis, e internet era por estes dias o nosso maior auxílio. Pusémos tantos anúncios na web para alojamento, e como tínhamos de actualizar constantemente os que já tínhamos, raramente desligávamos os portáteis.

 

Domingo, terceiro dia em Paris, último dia antes de 'ingressar' na nova universidade, e com alojamento por definir, toca a despedirmo-nos do Woodstock, e ir direitinho ao Macdonalds mais perto, que fica onde? Boulevard de Clichy obviamente! (mais exactamente em Pigalle) No entanto quem já veio a Paris sabe que existe um Mac de 10 em 10 metros, mas pronto...Era mesmo o mais perto...

 

 

Portáteis em cima da mesa, à cusca duma tomada, e a fazer de conta que consumíamos alguma coisa, nisto um rapaz e uma rapariga sentam-se na mesa ao lado da nossa, e começaram a falar português como se não houvesse amanhã. À primeira oportunidade lá meti conversa, e adivinhem quem eram: mais dois estudantes portugueses de Erasmus à procura de alojamento em Paris!...

Bem, como eles já tinham chegado a Paris há muito tempo, já tinham obtido muitas informações que foram preciosas para nós. Entre elas, o destaque vai para uma espécie de agência universitária de apoio ao alojamento e não só, chamada Crous (www.crous-paris.fr/), e uma outra agência que ajuda mesmo financeiramente (e que ajuda! quase 100 euros no mínimo), o CAF, Caisse d'Allocations Familiales (www.caf.fr/wps/portal/). Outra informação porreira que nos deram foi saber que existe uma rede wireless que cobre praticamente toda a cidade, e partilharam os códigos connosco (se alguém quiser, eu depois envio por mail).

Estas informações tão preciosas foram no entanto acompanhadas por um desânimo geral no que toca a arranjar local para viver em Paris. O sentimento de desistência começava a impôr-se, e só com muita sorte conseguiríamos arranjar qualquer coisa.

 

 

 

Saint-Denis cada vez mais uma realidade, e ainda nem sequer estávamos lá. Mas deveríamos estar...

Os nossos colegas futuros médicos foram embora, desejámo-nos boa sorte, mas nós ficámos, a 'javardar' hamburguers e a procurar anúncios por Saint-Denis. Mas pois, mesmo em Saint-Denis não seria muito fácil, as horas iam passando e não parecia termos muita sorte nas chamadas que íamos fazendo...

- Ah o quarto não dá para duas pessoas!"

- Ah as visitas só para a semana!

- Ah já está alugado!

- Ah não vou atender a vossa chamada! (não era bem isto...)

 

Mas bem, o curso de integração começaria bem cedo no dia seguinte, e precisávamos de arranjar qualquer sítio para ficar a dormir nessa noite e de preferência perto da universidade.

Reservámos pela internet um quarto no Hotel F1 de Saint-Denis. Fartos de ver hamburguers e copos de Coca-cola à frente, pegámos nos sacos e arredámos pé.

Adeus Clichy...

 

publicado por Nuno às 13:42

15 de Outubro de 2009

Porquê 'colorido'?

Porque desta vez ficámos num quarto-dormitório, com 5 beliches, e malta de múltiplas nacionalidades. A certa altura ficámos à conversa com uma americana e um alemão (de Ohio, e de Munique respectivamente, mas não me lembro dos vossos nomes, desculpem!) que nos disseram que estavam exactamente na mesma situação que nós (pois...), e trocámos ideias de como procurar alojamento definitivo. Eles estavam a ser mais adeptos dos jornais, e nós da internet...

 

Porquê 'refrescante'?

Ah, o duche tão esperado...

 

Porquê 'regresso'?

Sim, já tinhamos passado neste hotel a primeira noite, mas porquê vir tão cedo? Tendo em conta as horas de sono que nos faltava e o cansaço, poder adiar a preocupação do alojamento para segunda-feira onde íriamos para Saint-Denis, seria a 'cereja no topo do bolo'...

 

Porquê 'Woodstock'?

Pah, não conhecíamos outro...Mas também, arranjar um quarto livre, num hotel barato, num sábado, e em Paris, não é propriemente tarefa fácil...

 

 

 

Depois duma pequena sesta, saímos para jantar. Como já conhecíamos demasiado bem o lado Norte do Hotel (a Place de Clichy tornar-se-ia a nossa zona amuleto), fomos para Sul, mas mesmo sem malas a atrapalhar não fomos mais longe que o jardim da grande e desconhecida igreja de Trinité junto à praça d'Estienne d'Orves. Paris tem tantos e 'monumentais' monumentos, que dá-se ao luxo de nem assinalar esta igreja construída em 1861 no mapa turístico...

 

  

 

Piquenique em parques ou jardins de Paris, é daqueles momentos mesmo reconfortantes, e devia ser das melhores coisas do mundo. Quem está mais preocupado em experimentar o requinte das esplanadas chiques da cidade, não sabe apreciar o que é estar sentado num banco de madeira quase sem tinta, a contemplar os monumentos (sim, em Paris, a qualquer sítio que se olhe vê-se um monumento), enquanto se põe qualquer coisa numa imponente baguette, bebe-se sumo de laranja de marca branca, ouve-se o sussurrar das árvores com o vento, e tudo isto acompanhado por dois ratos a saltar de arbusto em arbusto (não devia dizer isto, mas depois do filme 'Ratatui', é um pormenor de cultura!)...E tudo isto durante o pôr do sol...É bonito...

 

 

 

Soube bem, mas o sono já começava a pesar outra vez, e teríamos de nos preparar para o dia seguinte, voltámos ao hotel, ainda houve tempo para o gajo da recepção me gozar por não conseguir perceber nada do que ele dizia, e houve tempo também para ver mais uns anúncios, claro está. Adormecemos com a noção que pouco mais tarde o conforto iria faltar outra vez....

publicado por Nuno às 17:55

Sábado, dia 19 de Setembro, a dois dias do ínicio das aulas. Ok, não seriam bem aulas, mas uma espécie de curso de integração ao francês para alunos de Erasmus, que duraria duas semanas. Só tínhamos essa informação e de que esse curso seria dado na nossa futura universidade: Université de Vincennes Saint-Denis. Muitas questões com o plano de estudos ainda teriam de ser resolvidos lá, mas...Não tínhamos alojamento...E essa era o grande problema primário para nós, mas aos poucos íamos vendo que a falta de habitação é o maior problema da cidade de Paris.

 

Quando se tem um problema, tenta-se solucionar de qualquer forma, e quase sempre sem pensar duas vezes. Costuma sair asneira, já lá vamos...

Acordámos outra vez muito cedinho, não para contemplar o nevoeiro do segundo dia em Paris, mas para nos dirigirmos ao Posto de Turismo na Boulevard de Rochechouart, muito próximo do Woodstock (o hotel onde ficámos a primeira noite... por motivos pseudo-técnicos não vamos dizer onde ficámos a segunda noite). É uma Boulevard, que liga outras duas, a de Clichy e a de La Chapelle, formando uma via muito importante em termos turísticos (Moulin Rouge, Sacré Coeur...).

Mas era tão cedo que o posto de turismo ainda não estava aberto...Mas para quê o posto de turismo? Saber onde ficava uma agência de alojamento, chamada de Hestia (www.hestia.fr/), anunciada na internet como a 'número 1' nos serviços imobiliários para estudantes, bla, bla bla...

 

Depois da fila de turistas italianos ter sido atendida, lá fomos nós de sacos e mochilas atrás perguntar onde ficava a tão estranha agência para a funcionária. E imaginem, fica perto de Porte Maillot, o local da nossa chegada, ou seja toca a ir a pé (uma viagem de metro fica por €1.60, não compensa, pensávamos nós), outra vez pelo mesmo percurso, e outra vez com os sacos. Mas tinha de valer a pena, era só a agência 'número 1' d...

 

Quando chegámos, a burocracia do costume (costume português pelo menos), um grupo de jovens na mesma situação que nós, e uma taxa de inscrição de 160 €!!!!! Inscrição essa que dava direito a ter acesso aos contactos dos proprietários de estúdios que nos poderiam interessar, exacto, 'poderiam' interessar, tal como 'poderiam' nem sequer estarem livres...Nem um rebuçado ou vale de compras a inscrição dava direito...

A simpatia do rapaz que nos atendeu (falava inglês, uau!) e o desespero fazem maravilhas!

Mas o resultado ainda é melhor, o único proprietário que nos atendeu e tinha o estúdio ainda por alugar, não aceitava estudantes com os pais a morarem fora de França!...

 

...VIVA o preconceito francês! Nas famílias francesas de Au Pair, não aceitam rapazes, e para alugar estúdios, não só já exigem cauções exageradas como ainda há quem exiga que os pagadores estejam a viver em França...

A desconfiança por rapazes a tomarem conta de crianças é completamente rídicula, já a desconfiança em relação ao resto até se percebe, mas não num país como a França...

 

Arranjar alojamento em Saint-Denis começava a ser um horizonte possível.

Saint-Denis é uma região, melhor dizendo, uma cidade nos subúrbios de Paris (o 'banlieue'), onde fica a nossa futura universidade. Infelizmente a procura por alojamentos 'dentro' de Paris deveu-se em muito a uma quantidade significativa de pessoas que em Portugal nos disseram que Saint-Denis era 'do pior'! Tão 'do pior' que até a Wikipédia fazia o favor de dizer que era a região com mais criminalidade da Île-de-France.

A île-de-France é uma das províncias em que se divide a França, e que inclui Paris (não falando da regionalização, e porque 'província' é tão prejorativo, é como a Estremadura incluir Lisboa)...

Pelo menos duma coisa tínhamos certeza, o alojamento fora do centro de Paris é bem mais barato. E talvez não perderíamos muito em tentar a sorte lá. Senão arranjássemos no fim de semana algo por Paris, íriamos na segunda-feira para a Universidade a piscar o olho a anúncios.

 

Já era de tarde, estávamos estafados, calor considerável, mas antes de decidir mais alguma coisa em relação a onde ficar essa noite, fomos tratar de comprar um cartão de telemóvel francês, já que nos esperariam muitas chamadas por fazer:

- Bonjour, J' appelle à cause de l'annonce...

 

Numa Fnac que é um autêntico centro comercial, comprar o cartão foi uma autêntica confusão. Se já é difícil falar uma língua em que se mistura inglês, francês e português (quando não se sabe o que dizer nas outras duas), o processo de aquisição não ajuda.

Mas bem, à medida que íamos 'vivendo' em Paris, íamos nos dando conta de novas soluções e de novas informações que nos ajudavam a safar-nos nesta imensa cidade.

As horas iam passando e o único sítio para ficar essa noite que nos vinha à cabeça era o Woodstock, então, toca a voltar para lá, mas como era cedo e a Boulevard de Courcelles já tava 'mais que batida' (ah pois! Damo-nos ao luxo de o dizer!), fomos pelos Champs Elysées (Campos Elísios pronto...). Não temos fotos desta avenida que é uma das mais largas e belas do mundo - aliás na altura que a estávamos a 'descer' nem fazíamos ideia de como se chamava -, mas fica a promessa de lá voltarmos como 'turistas'.

 

Fomos subindo pela luxuosos quarteirões que dariam à Place de Clichy, e os nossos ouvidos formados no meio da boa cuscubelhice tuga (é assim que se escreve?), permitiram-nos ouvir uma conversa entre duas senhoras portuguesas, e claro, só havia uma coisa a fazer: chatear uma delas.

A senhora era simpática, e apercebemo-nos que ela já era imigrante há muito tempo, ou não fizesse questão de dizer várias vezes que para irmos ter ao café português mais próximo bastava 'montar' a rua.

De qualquer das formas ficou com o nosso número para ver se nos arranjava um quartito onde ficar.

 

Etapa seguinte: ir ao café português, 'O Sopas', estabelecimento com requinte parisiense mas com autocolantes da Sagres a patrocinar a selecção bem visíveis. Metemos conversa com os nossos 'irmãos' e arranjámos mais contactos para possíveis estúdios. Acabariam por não servir para nada, mas pelo menos já tínhamos um sítio onde ver os jogos de futebol!

 

Antes de regressar ao Woodstock, destaque para o saco da Vânia, que oportunamente fez questão de rasgar...ah benditas lojas de indianos, sim porque aqui, lojas de chineses só na Chinatown...

 

publicado por Nuno às 15:30

Estudantes do Institut Français d'Urbanisme
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